O problema do multiplicador de Keynes.
Um exemplo da ideia do “Multiplicador Keynesiano”.
A teoria do multiplicador diz algo como: O “gasto”, seja de consumo ou investimento, geraria um “efeito dominó” na economia que teria um impacto maior sobre o rendimento do que o volume de gasto inicial. Por trás disso, existe a ideia de que o gasto de uma pessoa é rendimento de outra. Se um indivíduo tem 100 euros e gasta 80 na padaria, poupando os 20 euros restantes, o padeiro, passaria a ter 80 euros, que dos quais pouparia 16 euros e gastaria 64 no talho, por exemplo. O talhante, por sua vez, poupa 12,8 e gasta 51,2 no alfaiate e assim sucessivamente. Diz-se que nessa situação o multiplicador é 5, ou seja, um gasto inicial de 100 causará um aumento na renda de 500 euros.
Essa ideia incomoda-me. Como é que simplesmente gastar irá fazer o nosso rendimento aumentar? Se pensarmos ao nível do indivíduo, esse argumento parece uma tolice sem tamanho. Se eu quero aumentar o meu poder aquisitivo (aumentar o meu rendimento), eu tenho três opções: a primeira é arranjar um emprego que me pague mais, ou seja, eu preciso de realizar uma actividade na qual eu tenho um desempenho melhor. Uma actividade onde sou mais produtivo. A segunda opção seria a de poupar parte do meu rendimento e emprestá-lo a alguém. Eu não preciso de emprestar directamente, pois posso fazê-lo através dum banco. Ao fazer isso, no futuro, eu possuirei um poder aquisitivo maior. A terceira alternativa para aumentar o meu poder aquisitivo é endividar-me. Se eu quero consumir agora, eu posso pedir emprestado o dinheiro de alguém que está a poupar. Essas são as únicas maneiras de aumentar a minha renda. Nenhuma delas envolve “consumo”.
Note que essas três alternativas têm algo em comum. Para poder aumentar o meu rendimento, eu preciso de aumentar a minha produção. Na primeira alternativa, eu aumento a minha produção ao arranjar um emprego que me permita produzir mais, que me permita ganhar mais dinheiro. Na segunda opção, eu faço uma poupança, recebendo juros que irão aumentar a minha riqueza futura e, consequentemente o meu consumo futuro. Na última opção, eu endivido-me e, portanto, posso consumir mais no presente, mas terei que aumentar a minha produção no futuro para poder pagar o empréstimo. O consumo só é possível se os indivíduos oferecerem algo em troca. Para consumir algo eu preciso de oferecer alguma coisa. É esse o princípio da Lei de Say. Sem produção, não existe demanda. A produção permite me consumir.
Keynes, ao explicar o multiplicador, afirma que o consumo de uma pessoa é o rendimento de outra pessoa e assim sucessivamente. O que ele se esquece de dizer é que o consumo de um indivíduo só é possível se ele produzir algo de útil. Só pode consumir se oferecer. O consumo por si só não “aumenta o rendimento”. O que aumenta o rendimento é a poupança. Poupança permite o investimento em capital físico, capital humano e tecnologias. Tais investimentos aumentam a produtividade da economia e, consequentemente, o poder aquisitivo do país.
Quando se aumenta o consumo, a poupança é reduzida e, portanto, a capacidade de crescimento da economia é reduzida. Os empresários possuem menos fundos à sua disposição. O aumento do consumo pressupõe que exista uma produção que permita esse aumento. Esses produtos extras virão da poupança. Ou seja, se o consumo aumentar agora, a economia terá uma menor capacidade de crescimento. Há um “trade-off” muito claro (trade-offs, uns dos primeiros conceitos aprendidos em introdução à economia).
Se isso é verdade, então como que o Multiplicador pode funcionar? Ele funciona, pois para Keynes não existem custos em aumentar o consumo. Isso ocorre porque ele considera que a poupança é um “vertimento”. A poupança é algo mau que não serve para nada. Para ele, todo o dinheiro poupado será “enterrado” e não será revertido em investimento. O indivíduo, e a economia como um todo, não passariam pelo dilema da escolha inter-temporal, ou seja, a escolha de consumir agora ou consumir mais no futuro. Poupar, na visão de Keynes, seria burrice. Não serviria para nada.
É por isso que aprendemos em Macroeconomia I que o multiplicador dos gastos do governo é maior do que o dos tributos. Isso ocorre porque o governo, ao tributar, retira parte da renda destinada ao consumo e outra parte destinada à poupança. A parte destinada ao consumo causa um efeito negativo sobre a renda. Entretanto, a parte retirada da poupança mais que compensa a perda do consumo. Isso só ocorre porque Keynes considera a poupança algo inútil. Se considerarmos que a poupança seria destinada a investimentos por parte do sector privado, então o rendimento da economia seria prejudicado. Os investimentos do sector privado seriam reduzidos.
- Portanto, o mito do multiplicador keynesiano é falacioso, pois não leva em consideração que, para haver consumo, é necessário haver produção compatível. Não é o consumo que aumenta a produção. É a maior produção que aumenta a capacidade de consumir.
- Portanto, sempre que alguém vier com a “história do multiplicador”, pergunte-se: “Como esse consumo foi pago? De onde o consumidor conseguiu obter produção para poder realizar a troca?”.
* Lembrem-se: O consumo de uma pessoa só é possível se esta tiver produzido ou pedido um empréstimo. Toda a procura pressupõe a oferta de algum bem. Todo e qualquer consumo deve ser financiado com alguma produção. Quanto maior a produção, maior o consumo.
quinta-feira, 12 de março de 2009
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Conhecem a Parábola dos Talentos? Trata-se de um episódio biblíco sobre a utilização dos recursos e que a maior parte das pessoas julga tratar-se das capacidades inatas dos seres humanos. Bom, na verdade Talento era uma moeda dos egípcios e portanto o próprio Jesus Cristo entendeu o conceito de multiplicador tal como hoje é ensinado nas boas universidades (como a Lusófona, LOL).
ResponderExcluirConcordo quando diz que "Todo e qualquer consumo deve ser financiado com alguma produção. Quanto maior a produção, maior o consumo." mas não pode esquecer dois pontos importantes: Eu posso produzir e poupar e ao poupar estarei a retirar dinheiro do circuito económico (é por isso que o medo causa crises, pois com medo as pessoas tendem a poupar mais); e Produto e consumo são duas variáveis simultâneas, ou seja quando consumo aumento o valor do produto e quando aumento o produto também aumento o consumo. Custa a aceitar mas neste campo o Keynes tinha razão. Olhe que neste ponto nem o Milton Friedman apresentou alternativa.
Espero que o seu blog se torne num sucesso.
Um abraço,
José Paulo Oliveira